Sustentabilidade
jan
20

2012 e a profecia do mundo sustentável

Publicado às 18:12 1 comentário
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O fim do mundo pode ser apenas o fim do modo como o conhecemos hoje.

O ano de 2012 tem grandes motivos para abrir espaço a um novo mundo e ser decisivo ao futuro da humanidade. Ganham debate mundial os temas centrais às crises econômica, ambiental e social. Projetos essenciais ao desenvolvimento sustentável brasileiro entram na agenda do governo federal. Eventos se distribuem ao longo do ano com o carimbo da palavra mágica “sustentabilidade”. O potencial é de emergir um novo modelo mundial de desenvolvimento. Mas é claro que não só o potencial sopra o rumo dos acontecimentos.

O Código em suspense

Exemplo de grande suspense na agenda da sustentabilidade é a votação do Código Florestal, que está de volta à Câmara dos Deputados e deve chegar às mãos da presidente Dilma até o mês de março. As alterações feitas pelo Senado são interpretadas como uma conciliação entre as bancadas ambientalista e ruralista do Congresso. No entanto, os dois lados continuam descontentes e as condições em que o projeto volta à Câmara é muito mais conveniente às emendas ruralistas do que de à tentativa ambientalista de consertar alguns absurdos - como é o caso dos “4 módulos fiscais”.

Nesses momentos finais da votação do Código Florestal, a pressão da sociedade será mais importante do que nunca. A opinião pública precisa marcar presença na discussão através de consultas, protestos presenciais e cyberativismo. De antemão, o Comitê Brasil em Defesa das Florestas já anuncia a campanha “Veta Dilma”, lembrando que a presidente, durante a campanha eleitoral, assumiu o compromisso de não aceitar nenhuma lei que colabore com o desmatamento. O Brasil precisa deixar claro, logo no início do ano, que o meio ambiente não pode ser relativizado em função das situações econômicas - afinal, ele é insumo da economia!

Anfitrião da Rio+20

Afirmar isso de cara, já no começo de 2012, pode definir a liderança ou o acovardamento brasileiro diante do século XXI. Isso porque, logo mais, entre 20 e 22 de junho, acontece no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. O governo brasileiro já foi duramente cobrado na COP 17 do Clima, em novembro do ano passado, sobre sua conduta em relação ao Código Florestal. Se ele for aprovado como está, sem oferecer soluções para a Economia Verde, a moral do país que poderia protagonizar a Rio+20 será reduzida ao status de recepcionista em mais um evento pomposo da ONU.

Por outro lado, se o governo brasileiro sinalizar com o Código Florestal uma relação simbiótica entre economia e meio ambiente, poderá até atrair olhares perdidos dos países que sofrem com a crise econômica e buscam uma solução de justiça social e de uma economia que se sustente. O interesse dos líderes mundiais em vir à Rio+20 pode ser mais genuíno e mais aproveitável se o Brasil oferecer a Economia Verde sem mais pontos de interrogação.

Continuamos produzindo, comprando e jogando fora

Ora, não é só a Rio+20 que deve sinalizar nossos caminhos para a Economia Verde. O modo e a velocidade com que produzimos, consumimos e descartamos nossos bens estão no coração da crise ambiental e pode passar por uma revolução a partir de políticas que regulem essas atividades, inibindo economicamente o que não é sustentável e incentivando o que pode sê-lo. Nesse sentido, foi lançado no fim de 2011 pelo Ministério do Meio Ambiente, nove anos depois do compromisso assumido no Processo de Marrakesh, o Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS), que vigora até 2013.

Depois de produção e consumo, o descarte. Esse item também está contemplado na agenda de 2012, quando devem se consolidar os acordos setoriais da logística reversa, prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos - aprovada no início de 2011, após mais de vinte anos de tramitação no Congresso. Os acordos setoriais devem garantir o fechamento do ciclo produtivo, de modo que cada setor da indústria seja responsável pelo pós-consumo.

Haja energia

O lixo é oportunidade econômica até mesmo para a geração de energia. Essa possibilidade, entretanto, continua sendo pouco discutida no Brasil. Com medo de emitir carbono ao se livrar de toneladas de lixo, seguimos pujantes com a expansão das termelétricas. Belo Monte, inclusive, ainda não encontrou força democrática que promova alguma parada para repensar o projeto em 2012. As conquistas do etanol deixaram de se consolidar. Foram paralisadas em função do ufanismo em relação ao pré-sal. Concorridíssimos leilões de energia eólica continuarão sendo promovidos, dentro das tímidas porcentagens que o Plano Decenal de Energia promete para as renováveis. As experiências em energia solar seguem tímidas, como se não vivêssemos em um imenso país tropical.

Para Julho, as Olimpíadas de Londres prometem ser as mais sustentáveis da História. Enquanto isso, a promessa de sustentabilidade emperra nos megaeventos esportivos que o Brasil sedia nos anos seguintes. Mobilidade urbana com transporte público de qualidade deve ser uma cobrança frequente neste ano. Não só devido ao precário andamento das obras para os megaeventos, mas também devido às eleições municipais.

Onde as coisas acontecem

No fim de 2012, enquanto a COP-18 do Clima deve seguir o protocolo nada funcional, as eleições do próximo outubro têm enorme potencial e mérito para concentrar as energias e expectativas do brasileiro. Porque são nas cidades que as coisas acontecem. É no nível municipal que o imposto pago vira política pública. É na cidade que desemboca o produto retirado da Amazônia, a água dos mananciais, a energia dos ventos ou de Belo Monte.

Destino dos impactos ambientais e da execução de parte significativa das obras públicas, a cidade também é o local de onde saem a maioria das soluções. Os efeitos das mudanças climáticas do planeta, por exemplo, são sentidos de modo diferente em cada local. E, enquanto o sistema multilateral fracassa na tentativa de governar o mundo, é localmente que as mudanças climáticas podem ser enfrentadas ou dribladas.

Nestas eleições, os candidatos precisam mostrar comprometimento com projetos municipais de saneamento básico, mobilidade urbana, gestão de resíduos, combate às mudanças climáticas e às ilhas de calor, ocupação do solo e prevenção de enchentes. Propostas inteligentes e integradas poderiam facilmente aproveitar melhor as tecnologias e redes sociais para a participação pública e o mapeamento desses problemas socioambientais. Para que não assistamos às mesmas notícias catastróficas nos próximos anos, as eleições municipais são um evento-chave na agenda de 2012. Quando as cidades experimentam soluções, um novo mundo pode se abrir para a sustentabilidade.

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  1. Shama Postado em: 26 de janeiro, às 22:24

    Oi Ricardo,
    recebi seu texto através do Eduardo Rombauer… gostei muito do seu texto e visão…. tem muita sinergia com um que eu postei na semana passada no meu blog, principalmente ao apontarmos o lixo(resíduo) como uma solução planetária;
    http://cocriandoumanovaterra.blogspot.com/2012/01/oportun1dade-rio20-here-we-grow-check.html
    Espero te conhecer em breve,… grato pelas sábias palavras… avançabens, Shama!

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jan
16

Por que ainda não vencemos o crack

Publicado às 11:29 2 comentários

Somos todos vítimas do crack. E os responsáveis, quem são?

A Cracolândia não é apenas resultado do fácil acesso a uma droga barata, mas também da grave omissão dos agentes públicos e das famílias em relação ao que a droga representa. Antes de se iniciar a busca por responsáveis, é preciso uma dura admissão: os viciados em crack perderam a condição de exercer sua cidadania.

Se a dependência química denota a perda gradativa de esperança, o crack é o fim da linha. As consequências da abstinência são tão graves que os viciados não podem mais ser responsabilizados pelos seus atos. Ficam na condição de zumbis. Com a perda de autonomia, precisam ser tratados e tutelados.

Mas quem se arrisca a responder por eles?

As famílias já o tentaram, em vão. A legião de dependentes na Cracolândia em geral já foi expulsa de suas famílias e perdeu os vínculos. Por si só, o dependente não tem amparo para sair da situação em que caiu quando ainda tinha responsabilidade pelas suas decisões. Resta ao Estado, em suas múltiplas esferas administrativas, responder por esses doentes. O que lhe falta é coragem política e moral para assumir a tarefa.

Por parte da polícia, faltam políticas de inteligência, sistemáticas e contínuas. Os pontos de droga estão mapeados e o disque denúncia foi chave nesse mapeamento. Mas a ação continua emperrada. Por quê? Conivência, incompetência e corrupção são os vetores que amortecem a ação policial.

A questão permanece: por que não se combate a maior epidemia social de nosso tempo de forma sistêmica e integrada? A demonstração dada pelas autoridades na última semana mostrou mais uma vez que as injunções políticas foram mais importantes que uma estratégia sistêmica de enfrentamento do caos que se instalou no centro de São Paulo. E o resultado foi uma para a desengonçada ação policial.

O exemplo pode vir de fora

As experiências internacionais mostram que a ousadia em experimentar soluções - que incluem a própria droga como remédio, por exemplo - é mais eficiente do que o conservadorismo das políticas que simplesmente reprimem o uso. Um dos principais pontos defendidos pela Comissão Global de Políticas sobre Drogas (www.globalcommissionondrugs.org) é justamente “garantir que uma variedade de modos de tratamento esteja disponível - incluindo não apenas metadona e buprenorfina, mas também programas de tratamento assistido com heroína.” Por mais doloroso que possa parecer, ainda é um caminho minimamente humanitário comparado ao mundo cão que vimos nas últimas semanas por falta absoluta de políticas coordenadas.

A Suíça é um dos países reconhecidos por seus programas de distribuição controlada de heroína. Lá, os parques públicos foram saneados devido à abertura de centros que ministram a droga nas suas proximidades e à promoção de atividades ao ar livre para os jovens. A política antidrogas dos suíços tem quatro pilares: prevenção, terapia, redução de riscos e repressão. Alemanha, Espanha e Canadá também provaram que a assistência psíquica somada ao fornecimento seguro da droga diminui a criminalidade nas ruas. Só não soluciona a dependência química.

Quebrar paradigmas é um passo imprescindível para o tratamento dos dependentes de crack. Isso já aconteceu no combate à AIDS. O Brasil, católico e conservador, já havia mostrado mais vontade política ao tratar e divulgar essa doença sexualmente transmissível, quebrando o tabu. (Aliás, a liberdade com que hoje debatemos o tema da homofobia e do homossexualismo deriva dessa primeira ousadia.) A rigor, nada impede que as tímidas campanhas de combate ao crack deem lugar à contundência, franqueza e clareza que deram eficiência às mensagens de alerta contra a AIDS.

Por que os governos relutam em reconhecer o combate a essa epidemia como prioridade absoluta nas políticas públicas?

São os caminhos das campanhas ousadas, conscientização em massa, criação de infra estrutura para acolhimento e tratamento, suporte às famílias vitimadas, mobilização de especialistas em dependência química, repressão incansável ao tráfico, e, sobretudo, da assunção corajosa de responsabilidades pelos agentes públicos que viabilizam o combate ao crack.

A recuperação dos espaços públicos para todos será um benefício derivado - porque a maioria desses espaços é tratada como se a ninguém pertencesse. As cracolândias servem de depósitos para tudo que a sociedade rejeita. Mas a questão, de longe mais importante, não é a de sanar as cracolândias de seus zumbis. É libertar desta atroz doença social nossos atuais e futuros cidadãos.

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  1. Luis Postado em: 17 de janeiro, às 21:56

    Compartilho o que Fábio Assunção escreveu:

    Fábio Assunção, que já conheceu a barra da dependência química, escreveu sábias palavras sobre a questão da cracolândia no seu Facebook.

    “O que leio diariamente sobre a ação da polícia, visita das autoridades e discussões dos representantes da sociedade sobre a cracolândia, deixa evidente a dificuldade do homem em assumir e ser honesto frente a questão da dependência química no mundo ou aqui no Brasil, problemática grave e perigosa, vivida por 14% da população mundial, ou, 700 milhões de pessoas. Delegada pelo estado aos homens discriminados pela sua pobreza e raça, os administradores da produção e distribuição de entorpecentes. Quem realmente anda batendo cabeça não me parece serem apenas os dependentes de álcool e drogas, os drogados como os seres fúteis e ignorantes costumam chamar, e sim a sociedade, que se torna indecente com tanta hipocrisia e demagogia. Enquanto não nos libertarmos do nosso sentimento equivocado de superioridade aos que vivem num labirinto de desespero e solidão e enquanto não formos honestos com nossas vidas, essa tristeza vai continuar. Mas tudo bem, para quem prefere se declarar estrangeiro à essa questão. Um dia seus filhos o farão pensar sobre isso de forma humanitária. Nada como um dia após o outro. Crime é fechar os olhos àquilo que precisa de inteligência e verdade, além, claro, de amor. Nossas autoridades passeiam pela cracolândia como se estivessem no Simba Safari, olhando os animais do carro, rezando para não serem atacados. O frágil não são os senhores, são as almas em busca do nada, sem a capacidade de desenhar um caminho verdadeiro. Aliás, minto, os frágeis são sim, os senhores, por que é preciso ser forte para vencer uma tempestade e os senhores não vivem sem seus guarda chuvas de papel.”

  2. Luis Postado em: 16 de janeiro, às 20:14

    É preciso mudar o modo como educamos nossas crianças! Mudar radicalmente e colocarmos na pauta da grade escolar temas como Drogas, Sexo, Sustentabilidade, Política, Filosofia e tantas outras. Precisamos discutir, dialogar, conversar desde sempre.

    O Caso aqui são as Drogas e mais especificamente o Crack…
    Acho que se houver uma política voltada para prevenção em conjunto com a sociedade, criando ações de combate ao tráfico em todas as esferas, seria um grande passo! Porem, a verdade precisa ser encarada porque o usuário de Crack alem de dependente é em sua grande maioria traficante. Digo isso porque depois de um certo grau de dependência o usuário alem de compra para si próprio acaba comprando para o amigos também, isso porque é muito mais fácil uma pessoa comprar e depois fazer a distribuição, o risco é menor. E qual a conseqüência disso? A conseqüência disso é uma verdadeira catástrofe, porque este mesmo usuário enxerga uma oportunidade de ganhar um dinheiro e começa a traficar, compensa mais é logicamente é mais lucrativo, formando assim um circulo ainda mais vicioso e preocupante.

    É necessário sim termos políticas educativas e preventivas, mas também é necessário um entendimento maior de como funciona este sistema para que as leis sejam aplicadas de forma rigorosa para aqueles que insistem em difundir o Crack.

    As pessoas precisam se encorajar e denunciar qualquer tipo de ato que vá contra as leis naturais do bem estar, seja o traficante que esteja na esquina ou no beco, seja quem amamos, pois só assim estaremos sendo éticos com a sociedade e com as famílias que possivelmente pode vir a serem atingidas com tamanha enfermidade.

    Coragem é o que falta para todos nós!!!

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dez
21

O Clima vai muito além da COP

Publicado às 10:00 2 comentários

Contradições sutis se escondem entre as vibrações de uma torcida que canta algum avanço como se fosse vitória na COP-17. A extensão do Protocolo de Kyoto, para começar, tem mais relevância pelo seu lado negativo, com a recusa dos gigantes poluidores Japão, Rússia e Canadá em renovar seus compromissos, do que por perdurar com seus números irrelevantes. A próxima definição prática sobre a meta de corte de emissões só vem em 2015, com o acordo pós-Kyoto, e só passa a valer em 2020. O Acordo de Copenhague, sem força legal, havia proposto um corte de 20% nas emissões dos países desenvolvidos até 2020. Ou seja, os passos ainda seguem muito aquém da recomendação do IPCC - que, para o mesmo ano, pede redução entre 25% e 40%. O pior é que essa voz, científica, deveria ser a mais ouvida numa COP, já que o Painel foi criado para servir à governança global pelo clima e não apenas para criticá-la.

Outro gigante das emissões, os Estados Unidos mantêm a decisão de dez anos atrás. Não quer compromisso com o clima. E o Brasil? Mais uma vez, sobe no palco apenas para fazer cena. Salvo o ato político na COP 15,em 2009, quando o Brasil prometeu reduzir entre 36 e 39% das suas emissões de carbono projetadas para 2020. A promessa se efetivou com a Lei da Mudança Climática (lei 12.187/09).  A ocasião esclarece o esforço: em época pré-eleitoral, a figura de Dilma precisava de reconhecimento no cenário internacional.

Hoje, se tivesse alguma ambição de influenciar as negociações, o Brasil atuaria desde o início da Cúpula e não apenas nos momentos tensos do final. Tanto em Cancun como em Durban, o Brasil se preocupou mais em deixar ressoar algumas frases de efeito e mostrar eventuais não-alinhamentos. Não quis saber de usar sua importância econômica e sua influência nos dois blocos, G-77 e G-20, para liderar as negociações.

Se o protagonismo brasileiro foi uma cena, o sucesso da COP 17 foi uma peça completa. A Plataforma de Durban é apontada como histórica por romper a barreira entre a responsabilidade dos países ricos e pobres. Mas não é bem assim. Essa barreira já vinha sendo quebrada há muito tempo pelos emergentes Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul, desde que suas economias ganharam importância e impacto similares a dos países desenvolvidos. Ou seja, Durban simplesmente se atualiza sobre uma realidade. Apenas admiti-la, sem tratá-la, é muito pouco para uma cúpula de duas semanas que poderia, como promete o slogan, “salvar o amanhã”.

Apostas

Enxergamos com muita clareza os conflitos de interesses da política e da economia mundiais, aparentemente vitais para a manutenção do “equilíbrio” geopolítico global - ou melhor, do status disso tudo. Já o equilíbrio climático talvez seja muito complexo para ser compreendido, debatido e negociado. Como é mais fácil estudar o PIB do próximo ano do que a temperatura de 2050, joga-se na gaveta os relatórios do IPCC para se garantir a realidade palpável - marrom, desigual, irresponsável, além de “alto carbono”.

Essa aparente miopa dos negociadores das COPs certamente explica a baixa aposta que os países fazem em relação às ações de mitigação contra a mudança climática. Fica evidente que os negociadores não são empoderados, como se vê com a saída do Canadá do Protocolo de Kyoto: não se trata apenas do fracasso da COP, mas do fracasso da governança global.

Se a Plataforma de Durban é histórica para a política, para o Clima é ínfima: deixa à mostra a incapacidade de a dita civilização global controlar o seu próprio destino, já que as mudanças climáticas são uma das questões globais mais urgentes, ao lado da crise do euro.

Não podemos esquecer que o sistema multilateral hoje existente é resultado dos diversos acordos surgidos no pós-Guerra e que estão completamente desatualizados em relação aos desafios atuais. Mesmo a União Europeia, resultante de maior grau evolutivo em relação ao sistema multilateral, enfrenta grandes dificuldades de resolver problemas comuns. Isso sugere que o grau de multilateralismo necessário para dar resposta aos nossos problemas está muito distante do que alcançamos até hoje.

Enquanto isso, o mundo real se move. As soluções práticas para o Clima continuam vindo de baixo para cima e elas podem impulsionar um grau mais alto na gestão planetária. Suas manifestações já nos sugerem isso. Precisamos apostar com toda força nessas iniciativas: locais, criativas, virulentas. Governança global ainda não existe. As lideranças locais são as grandes heroínas que protagonizam as ações pelo Clima.

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  1. Carlos Arraes Postado em: 10 de janeiro, às 14:54

    O problemas maior das mudanças climaticas, não são apenas as mudanças que vem ocorrendo em face das ações impensadas do home, que age em nome da ganancia e do lucro fácil, mas sáo acima de tudo, em nome em nome de uma falsa retórica e uma fala que não sai do discurso, pois na prática, o que estamos vendo desde o tratado de Kyoto, é apenas palavras e pouca ação prática, pois quando se tem que mudar de fato, como vai mexer no bolso de muita gente rica e de paises industrializados, e isso afeta a economia global, como eles querem fazer vale, ai não há interesse de se cuidar da natureza, MAS A NATUREZA está dando seu troco, face ao descado de como vem sendo tratada. Parabens a natureza. Será que o home]ome ainda vai continuar com essa insensata e insane mentalidade de ahchar que o peogresso tem que ocorrer a qualquer custo. CHEGA de pensamento mediocre, e vamos agir com mais consciencia humana e pensar em nossa atual geração, que já tem problemas demais e estamos deixando uma herança, que nossos filhos e netos não estão pedindo por pra falta de conhecimento, pois se pudessem opinar, mandariam todos os lideres mundiais e gananciosos PARA O PAREDÃO e fuzilaria todos, por total falta de compromisso humano.

  2. Luis Postado em: 6 de janeiro, às 10:30

    O problema e que as decisões sao levadas em âmbito político, quando deveria ser em âmbito global. A verdade como bem dita e que nao existe uma preocupação real para dar uma solução ao problema. O Brasil realmente poderia liderar essa frente, mas nao faz porque e omisso e tem medo de se agigantar.
    Ja passou da hora de termos lideres que de fato abracem o problema e que proponham um soluções.
    Ate quando?

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dez
16

Presente de Natal

Publicado às 16:11 0 comentário

Ao parar em frente às prateleiras das lojas, que tal olhar para esta época como uma oportunidade de promover a cidadania?

O Natal virou uma febre de consumo. O espírito natalino está mais simbolizado pela movimentação caótica na rua 25 de março, em São Paulo, do que pelas ações solidárias que, alguns dizem, dita o clima de dezembro. Para horror dos consumidores conscientes, toneladas de papeis de presente, fitas e laços, enfeites, luzinhas e mais tranqueiras para a mesa ou a parede lotam as casas das pessoas e, pouco tempo depois, suas latas de lixo. A boa notícia é que o horror ao consumismo natalino pode ser uma alavanca para a mudança do hábito.
Como o motivo das comemorações não é o consumismo por si só, essas datas são um bom álibi para transformar o consumo em um ato de cidadania. Afinal, consumir não é pecado e pode ser usado para promover o bem, incentivar boas práticas empresariais, recompensar trabalhadores dedicados e presentear uma pessoa querida - com algo que ela necessite, de preferência.
Hoje, as portas estão abertas para um consumo desenfreado, apontado por alguns como herói da crise econômica - gerador de empregos! Grande força que faz rodar a economia! Só um detalhe técnico não deixa a conta fechar: as matérias-primas não são infinitas. Não dá para crescer para sempre. Precisamos superar a lógica atual e, para isso, é imperativo que o ato de consumo seja consciente. O comportamento de consumo tem o poder de determinar como os produtos serão fabricados, utilizados e descartados na sociedade. E daí, o ato da compra vira uma chave da sustentabilidade.
Simplesmente comer menos carnes ou banir as sacolinhas plásticas do seu dia-a-dia não vai bastar (apesar de valer o esforço, gente!), porque do ponto de vista do ambiente todas as nossas ações consomem algum recurso natural, mesmo que não estejamos em frente às prateleiras. Isso é, o consumo consciente, mais que novas ações, requer uma nova lógica de pensamento que guie nossas decisões.
Na hora de pesar “custo x benefício”, é preciso incluir os fatores socioambientais nos dois lados da balança. Uma camiseta, por exemplo, pode carregar o custo social de uma mão-de-obra escrava e o ambiental do uso excessivo de agrotóxicos, não incluídos no preço final e dificilmente rastreados ao longo da cadeia produtiva. Por outro lado, um artigo feito por comunidades ou fruto da economia solidária traz o benefício social de manter a economia a cultura locais, além de dispensar impactos ambientais que seriam maiores se o produto fosse industrializado.
Depois de incorporar em suas compras a lógica do consumidor consciente, alguns truques podem ajudar. Preferir produtos feitos localmente, ou seja, que precisaram de menos transporte para chegar até nós, é uma forma de incentivar a economia local e evitar as emissões de carbono do transporte. Também vale apostarmos em presentes imateriais, seja uma carta ou ingressos para um teatro. Outra opção de muito valor para o presenteado, porque demonstra dedicação a ele, é produzir o presente em vez de simplesmente passar na loja para comprar algo pronto. Pode ser uma poesia, uma fotografia emoldurada, um pequeno artesanato.
Não existe uma lista que esgote todas as ações do consumidor consciente - elas requerem a criatividade de cada consumidor. No entanto, um resumo prático ajuda a guiar esse consumo. São os 5 Rs: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar.
Repensar foi lá o primeiro passo. Recusar é a prova de que o consumo foi repensado: não precisamos de tantas coisas quanto nos oferecem e trocar de computador ou redecorar a casa não é uma necessidade. Quem recusa, Reduz seu consumo e alivia a pressão sobre o planeta. Reutilizar é uma forma de alongar a vida útil dos produtos - geralmente feitos para quebrar logo e provocar uma nova compra, a chamada obsolescência programada. Quando não há mais utilidade, encaminhar os produtos para a Reciclagem é a última responsabilidade do consumidor consciente. Faça aqui o teste.
Usar os bens materiais com racionalidade é diferente de explorá-los com ganância. Quando usamos um recurso para nos sustentar e promover nosso desenvolvimento, nosso consumo tem valor. Já quando jogamos fora algo que ainda podemos usar, como conta o neto de Mahatma Gandhi sobre o que seu avô lhe ensinou, “estamos praticando uma violência contra a natureza, que foi subtraída para nos fornecer esse material. Estamos desrespeitando as pessoas que trabalharam nessa produção. E também estamos tirando a oportunidade das pessoas que ainda não têm esse bem. Assim vamos gerando um ressentimento na sociedade, que pode estar na raiz da sua violência, sem nem saber por onde ela começou.”
Neste Natal, que nosso consumo seja instrumento de cidadania e solidariedade. E que regenere ressentimentos em vez de criá-los. Boas festas a todos!

Presentes imateriais:

Viva Experiências

O Melhor da Vida

Presentes ecológicos:

Ecoloja

Faça-você-mesmo

Joanninha - aluguel de brinquedos

12 presentes sustentáveis para o Natal

Presentes eco e solidários:

Ponto Solidário

Cooperárvore


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dez
13

Quem quer Belo Monte?

Publicado às 11:57 1 comentário

O projeto não é antiecológico. Os jovens não saem às ruas para protestar. A construção de Belo Monte é antidemocrática e o povo sai às telas do Youtube para finalmente abrir o debate.

Poderia ser só mais uma mega obra, para a Copa ou para o PAC. A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte não está gerando polêmica por si só, mas pelo que significa diante das opções energéticas de que o Brasil pode lançar mão neste início do século XXI. O país é repetidamente lembrado por apresentar grandes áreas potenciais geradoras de energia solar, eólica e até a partir das ondas do mar - limpas, renováveis e livres de impactos sociais tão negativos quanto as hidrelétricas. Reduzimos esse debate à construção ou não de Belo Monte. E, mesmo simplificando, ainda não estamos sendo ouvidos.

Sequestraram a democracia. Os suspeitos são eles: os grandes interesses econômicos. O anúncio é de que os índios foram consultados, mas os relatos de jornalistas e documentaristas que visitaram as tribos levantam a suspeita de que houve pagamentos a líderes indígenas - e quem não aceitou o escambo teria sofrido ameaças. As suspeitas indicam que os índios não foram ouvidos, foram calados.

Os processos de licitação da obra foram dos mais tumultuados dos últimos tempos.  Não há transparência em nenhum aspecto do projeto. Quando o Ibama usou sua autoridade ambiental para barrar a licença, barrou-se sim o presidente do órgão. Abelardo Bayma foi pressionado e acabou substituído por outro que emitiria a licença ambiental definitiva para o projeto.

Os aspectos financeiro e energético também são obscuros: a declaração do governo é de que a construção da usina custaria R$19 bilhões,  mas o pedido de financiamento é de R$25 bilhões e a mais recente estimativa é de que custe  R$30 bilhões. Ou seja, ainda não sabemos quanto subsídio estatal será desembolsado para concluir Belo Monte. O anúncio de que será uma das três maiores usinas do mundo e a maior usina inteiramente brasileira também é falseado, já que essas posições nos pódios se deveriam ao potencial máximo de 11.223 MW. Entre cheias e secas, o potencial médio no ano é de 4.420 MW.

Se mostrasse falhas nos critérios de sustentabilidade, conceito que nossa sociedade começa a aprender, o processo não seria tão assustador. Mas Belo Monte expõe falhas da nossa jovem democracia. A construção marcha a passos pesados e ninguém parece poder interferir, já que as autoridades responsáveis por trazer os planos do governo ao conhecimento público não são eficientes - seja porque lhes falta interesse ou porque não têm alcance.

Os meios tradicionais de se promover a democracia estão emperrados. Mas é justamente nesse ponto, em que o cenário fica crítico, que sociedade emerge com mecanismos inovadores. Mais eficazes que os modos convencionais de “botar a boca no trombone”, eles podem reinventar a organização social.

Fios de esperança, conectados

Duas décadas após o fim do regime militar no Brasil, a Internet e as redes sociais incitam a revolução por uma democracia mais autêntica e participativa, independente do poder financeiro e dos limites territoriais. Há menos de um mês, o vídeo A Gota D’água , produzido por atores globais, ganhou repercussão viral na web, alcançando quase quatro milhões de visualizações e gerando, além de assinaturas contra Belo Monte, dezenas de vídeos-resposta (assista no fim do post).

Uma resposta produzida por estudantes da Universidade de Brasília e outra pela Universidade Estadual de Campinas ganharam, no início deste mês, a capa da revista de maior circulação no Brasil. E três dias depois da reportagem na Veja, surge de Altamira, no Pará, a versão dos moradores que serão diretamente impactados pela construção da usina. Seguindo a mesma linguagem, no título provocativo e no revezamento de personagens para a cena argumentativa, “Pimenta nos olhos dos outros é refresco” completa a diversidade do cenário saudável em que o debate finalmente é democratizado.

Cidadãos internautas estão mostrando que nossas decepções com o fazer político não precisam se refletir em apatia. Eles procuram outras formas de serem ouvidos e encontraram nas redes sociais um meio de confrontar, diretamente e em pé de igualdade, o glamour e o carisma dos artistas da Globo e de outros grandes formadores de opinião.Nunca foi tão possível ter uma ideia na cabeça e uma câmera na mão.

A era digital tinha mesmo de estourar agora, com potencial de mobilizar a opinião pública e unir a sociedade civil. Afinal, não será possível alcançarmos a sustentabilidade sem termos conquistado a democracia.

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  1. joao batista Postado em: 14 de dezembro, às 12:33

    Os comentários do Sr Young são representativos de uma completa ignorância. Se vivemos em um país com instituições democráticas, como é possivel questionar que as oitivas não foram realizadas, que o presidente do IBAMA saiu por conta da Licença? Ora, o MPF tem tentado demonstrar essas supostas ilegalidades, mas a Justiça tem dado a causa pró Belo Monte. Se o Sr. Young duvida das instituições brasileiras, então nada a argumentar.
    Recomendo ler o artº do Reinaldo Azevedo, na Veja sobre o Ministro Gilmar Mendes, do STF, sobre a independência do Judiciário. Para dados sobre Belo Monte, leia o blog http://www.blogbelomonte.com.br
    Como dizem os estudantes da UnB, vá se informar…

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dez
09

Blog no ar!

Publicado às 16:00 0 comentário

Olá!

Este blog é mais um espaço de crítica, reflexão, balanços e proposições sobre o grande desafio que a humanidade enfrenta neste início de século XXI: a busca por sustentabilidade. Por aqui poderei antecipar aos internautas e telespectadores do Sustentabilidade o que será debatido nos próximos programas. Também vou complementar e opinar sobre os temas de cada edição e, claro, comentar outros fatos relevantes que indicam por onde caminhamos neste mundo em transformação.

Espero que você goste de acompanhar meu blog e comente sempre que quiser. Nos posts abaixo você já encontra um artigo sobre o papel brasileiro nas negociações da COP 17, uma reflexão sobre os caminhos da Educação Ambiental no Brasil e também uma crítica sobre cidades sustentáveis, que foi o tema de estreia do nosso programa Sustentabilidade.

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dez
09

Lição subversiva

Publicado às 15:33 0 comentário

Grandes lições nos aguardam. Diante das transformações que o mundo vive neste início de século XXI, a educação que nos forma para um mundo funcional e baseado na lógica do consumo está se mostrando incompleta, já  que as escolas formam para o mercado e não para a vida - como se o primeiro pudesse reger a segunda.

Com a urgência de quem precisa passar de ano e sair do vermelho, o mundo experimenta um novo repertório, ainda em construção, para o qual a Educação Ambiental é indispensável.

A lição de se compreender a Vida sob uma perspectiva sistêmica, integrada e interdependente está mais próxima de uma transgressão aos padrões do que de uma formação educacional.  Pessoas bem formadas se posicionam melhor na sociedade porque estão dentro de sua fôrma - daí a origem da palavra “formatura”. Em meio a um mundo consumista, hedonista e insustentável, a Educação Ambiental não é “formadora”. Foge da condição de ser mais uma disciplina no currículo e se afirma, como nenhuma outra, como educação alternativa. É transgressora. É subversiva.

Transformar o mundo está na razão de ser da Educação Ambiental (EA). O primeiro princípio básico previsto pela Política Nacional de Educação Ambiental é de que ela tenha “o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo”. Ou seja, não deve de modo algum ser voltada apenas ao estudo da flora e da fauna. Deve sim, como prevêem diversos estudos na área, ser crítica e emancipatória.

Não é à toa que a atividade de maior repercussão, entre o extenso portfólio do  Programa Nacional de Educação Ambiental, seja a Conferência Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente. A oportunidade, que começa com conferências locais nas escolas e leva representantes a Brasília para uma edição nacional, oferece ao jovem poder de mudança da realidade, convocando-o à responsabilidade pelo seu ambiente e estimulando a reflexão e o engajamento.

O exemplo demonstra ainda dois aspectos fundamentais à Educação Ambiental: o sociopolítico, que permite compreender a realidade de forma crítica e propositiva, e o saber ecossistêmico. Assim, somos convocados a pensar uma gestão mais abrangente do mundo, em que o meio ambiente deixa de ser um fator a ser considerado para ser uma dimensão transversal a todos os fatores.

Neste sentido, o Plano Nacional de Educação para os próximos dez anos, em tramitação no Congresso, poderia ter sido escrito no século passado. Preocupado ainda com o requisito básico da universalização do ensino, propõe apenas metas numéricas, que pensam tratar da qualidade do aprendizado. Se for bem cumprido, finalmente as crianças sairão da escola sabendo ler e escrever. Mas, segundo o Plano, os brasileiros que devem guiar o século XXI continuarão analfabetos ambientais.

A responsabilidade, como se esforça em mostrar o movimento da sociedade civil “Todos pela Educação”, é mesmo de todos: mais que agir localmente, devemos cobrar o Conselho Nacional de Educação e do Plano Nacional de Educação para que sejam mais propositivos e audaciosos. O primeiro delineando os novos parâmetros curriculares consonantes com o chamado de nosso tempo; o segundo, avançando de fato e expandindo os estreitos limites que ainda condicionam os saberes tradicionais.

Afinal, enquanto a Sociedade penalizar apenas pais, professores e escolas pelo atual quadro, a Educação Ambiental não terá chances de ser sistêmica e integradora. Ela precisa ser a expressão da vontade coletiva de uma nação que entende o que significa responsabilidade global no século XXI.

Sem se acomodar no papel subversivo, para que não se isole em trincheiras, a Educação Ambiental precisa estar atenta às limitações da educação atual. Com isso, deve transbordar os limites da escola, catalisar processos em curso na sociedade e integrar as lições da insustentabilidade na formulação de uma nova proposta. Não algo contra a realidade de hoje, mas à frente dela.  Evoluindo, qual espiral, e carregando consigo a missão  de impulsionar a era da sustentabilidade.

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dez
08

O clima é outro e o Brasil pode fazer a cena

Publicado às 11:33 0 comentário

Quem viveu as expectativas de um acordo que substituísse o Protocolo de Kyoto, às vésperas da COP-15, em 2009, sabe que o clima não é o mesmo desta vez. Naquele ano, abaixo-assinados e manifestações demonstraram a preocupação das pessoas de todo o mundo com a mudança climática já 10 meses antes da Conferência das Partes sobre o Clima. Não que neste ano tenha faltado plateia. A cena mudou porque os atores trocaram seus papeis.

Em Durban, África do Sul, a COP-17 começou na semana passada sem nenhum fio da esperança que a sociedade civil depositara há dois anos por um novo acordo climático, apesar de a urgência ser gritante, visto que Kyoto expira no ano que vem e não há indícios de que ele será melhorado ou prorrogado. E o pior: a previsão de ficarmos sem nenhum acordo climático é mais realista do que a de chegarmos a um novo documento.

A falta de expectativas sobre Durban não poderia refletir apenas a decepção pública com a COP-15, de Copenhague. A dificuldade de se avançar nos debates deve-se muito mais aos personagens, que não cabem mais nos papeis previstos por Kyoto.

Antes tínhamos os países ricos no papel de culpados pelas altas emissões de carbono, enquanto os pobres eram apenas vítimas do processo. O que temos hoje é uma profunda crise econômica que não dá pistas do futuro para a zona do euro. Os grandes poluidores que resistiam a Kyoto hoje são vítimas de seu próprio sistema econômico. Podem fazer muito pouco por um novo acordo climático.

Do outro lado da história, Brasil, África do Sul, Índia e China se destacam economicamente. O Brasil mostra que pode ajudar o FMI, quem diria!, e a China há quatro anos já emite mais carbono que os Estados Unidos – sim, aquele que não queria comprometer suas chaminés. Ficou para trás.

Apelidado de BASIC, esse grupo de países em vigoroso desenvolvimento caminha para ultrapassar os desenvolvidos em quantidade de emissões de carbono. E como o potencial econômico também leva responsabilidade para o cenário internacional, o G-20 vem substituindo o G-8 na governança global. Os BASIC continuam integrando o G-77 e conhecem bem o lado dos países que cobram assistência: não conseguem crescer, não têm como investir.

Compartilham responsabilidade nos dois blocos. São os únicos que se beneficiam do crescimento econômico. E ainda têm condições de reverter suas emissões, adotando políticas industriais mais limpas. É diante desse cenário que os países do BASIC não podem se omitir da liderança no processo da negociação climática.

Entre os potenciais líderes, o Brasil se destaca ainda por apresentar a melhor correlação do planeta entre recursos naturais e emissões de carbono - além de ser o anfitrião da próxima Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Temos abundância em recursos naturais cada vez mais preciosos ao mundo: água potável e florestas conservadas.

Esse capital natural torna a liderança do Brasil inequívoca. Entretanto, a dádiva natural exige gestão cautelosa e o retrocesso do Código Florestal é ameaça certa à autoridade brasileira nas negociações do clima. Em Durban, manifestações de ONGS internacionais contra as mudanças do Código Florestal brasileiro ficaram marcadas na primeira semana de COP. O fato e sua repercussão não deixam dúvidas de que resolver as incoerências internas será um item fundamental para que o protagonismo brasileiro se consolide.

O novo sistema econômico já se configura, exigindo qualificações ambientais e baixa emissão de carbono. Ao emergirmos como potência para o cenário global, precisamos obedecer a essa nova lógica. Afinal, todos fiscalizam um personagem central. Daí fazer a cena não pode ser confundido com “fazer cena”.

Honrar o compromisso assumido em público quanto ao Código Florestal e garantir uma gestão democrática tornando transparentes os processos do polêmico projeto da hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo, são alguns aspectos com que o governo brasileiro deve se preocupar no período que separa Durban da Rio+20.

Mas, por ora, a oportunidade faz o líder e o anfitrião da Rio+20 tem todas as credenciais para liderar a negociação da COP-17, mediar interesses e convidar os líderes mundiais a um diálogo eficaz no próximo junho. A configuração geopolítica já lhe dá o papel de protagonista. Só falta entrar em cena.

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dez
06

Qual a fórmula?

Publicado às 11:14 0 comentário

O desafio de se construir “cidades sustentáveis” é mais importante do que nunca, já que mais da metade do mundo hoje está nas cidades, conforme o Fundo de População das Nações Unidas. Segundo a organização, dois terços da população mundial terão migrado para a vida urbana até 2050.
Mesmo no Brasil, tradicionalmente um país rural, 84% da população já está concentrada nas cidades. Ao prometer toda a estrutura para o desenvolvimento humano e a formação intensiva de talentos, elas são atraentes às pessoas. Mas também demandam quantidades exorbitantes de recursos naturais, em velocidades cada vez maiores – isso é, sem o tempo necessário para que a Natureza renove seus estoques.
Destino final de tudo o que é gerado pelo planeta, as cidades não devolvem quaisquer benefícios para o ambiente, mas apenas os sugam. São buracos negros. Evitar que esses buracos drenem com cada vez mais intensidade as matérias-primas que sustentam a Vida requer uma reviravolta no processo de urbanização.
Não basta apontar o planejamento urbano como solução. Ele só será capaz de reverter essa fórmula da insustentabilidade, aplicada hoje nas cidades, se considerar a questão ambiental no centro da tomada de decisão. Não porque seja mais importante que as outras medidas, como as dos planos social e econômico, mas porque as determina.

Fórmulas insustentáveis
O atual plano diretor de São Paulo, elaborado em 2002 e em vigor até o ano que vem, trata problemas ambientais em itens periféricos e desarticulados de outras propostas. No capítulo sobre resíduos sólidos, por exemplo, não há diretrizes firmes que evitem o colapso dos aterros sanitários. Há apenas o registro da bonita intenção de se promover o “fomento à reciclagem”. Como se ela não alavancasse a economia sem precisar explorar mais matérias-primas e ainda tirasse da miséria milhares de catadores. Nesse ponto entraria em prática outro nome que os planos de governo sempre citam, apenas para posar de socialmente responsável: a inclusão social.
A maior cidade da América Latina ainda não conhece seu plano diretor estratégico (PDE) para os próximos dez anos – a Prefeitura até agora não apresentou nada à Câmara de Vereadores. O que há é um plano para a São Paulo de 2040, aberto à consulta pública, sem força de lei, nem densidade digna de planejamento urbano. Mas que pode servir de inspiração para o PDE.
O SP 2040 avança ao século XXI quando prevê em seu eixo ambiental a integração do tecido urbano com os ecossistemas. Os outros eixos, no entanto, oferecem mais marketing que estratégia.

Experiências inspiram
No lado positivo da balança, não são poucas cidades no mundo que experimentam a sustentabilidade, cuja perspectiva une numa mesma base os os benefícios ambientais, sociais, econômicos e culturais – ligação que fica cada vez mais óbvia apesar de alguns interesses especulativos insistirem no dissenso.
Seja uma ecovila na Escócia, um projeto de traffic calming em Belo Horizonte ou a reinvenção da economia no Bronx, em Nova York. Experiências inspiram. Na semana passada, uma iniciativa de diversas organizações da sociedade civil lançou na capital paulista o programa “São Paulo 2022”. A publicação reúne diretrizes e metas, com base no sucesso de grandes cidades pelo mundo, para que a São Paulo dos próximos dez anos seja mais democrática (com o poder descentralizado) e saudável (com rios despoluídos e descanalizados, 100% dos resíduos sólidos reciclados, expansão das áreas verdes como alívio para o clima, entre outros). A proposta ainda mostra a viabilidade da mobilidade urbana, economia criativa e inclusão digital (íntegra disponível aqui).
Sua maior contribuição, no entanto, é expor a fórmula, que se equaciona quando retornamos para o ambiente os benefícios que retiramos. Desinventar o lixo e fazer com que a vida útil dos produtos também seja circular, como todos os processos naturais, é um dos exemplos de como devem funcionar as políticas para uma cidade sustentável. Para simplificar a fórmula: consumir menos, devolver benefícios ambientais, somar tecnologias limpas e multiplicar a educação para a cidadania é igual a sustentabilidade.

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  • Perfil do autor

    Ricardo Young é empresário, graduado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas, pós-graduado em lideranças sistêmicas pelo MIT e em administração geral pelo Programa de Desenvolvimento Gerencial, atual Insper.

    Foi fundador da Associação Brasileira de Franchising (ABF) e promotor do sistema de franquias no Brasil - exerceu a presidência da ABF por três mandatos alternados.

    Há 20 anos atua com os temas de responsabilidade social, meio ambiente e sustentabilidade, tendo sido um dos fundadores, presidente executivo e atualmente conselheiro do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Também faz parte dos conselhos do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e do Instituto Democracia e Sustentabilidade, além de ser conselheiro de sustentabilidade de diversas empresas. Liderança ativa no Movimento pela Nova Política, em 2010 foi candidato a senador em São Paulo pelo Partido Verde. Young também escreve bastante: é autor de um livro, co-autor de outros três, tem vários textos publicados e é produz artigos como colaborador do jornal Folha de S. Paulo e da revista Carta Capital.