O desafio de se construir “cidades sustentáveis” é mais importante do que nunca, já que mais da metade do mundo hoje está nas cidades, conforme o Fundo de População das Nações Unidas. Segundo a organização, dois terços da população mundial terão migrado para a vida urbana até 2050.
Mesmo no Brasil, tradicionalmente um país rural, 84% da população já está concentrada nas cidades. Ao prometer toda a estrutura para o desenvolvimento humano e a formação intensiva de talentos, elas são atraentes às pessoas. Mas também demandam quantidades exorbitantes de recursos naturais, em velocidades cada vez maiores – isso é, sem o tempo necessário para que a Natureza renove seus estoques.
Destino final de tudo o que é gerado pelo planeta, as cidades não devolvem quaisquer benefícios para o ambiente, mas apenas os sugam. São buracos negros. Evitar que esses buracos drenem com cada vez mais intensidade as matérias-primas que sustentam a Vida requer uma reviravolta no processo de urbanização.
Não basta apontar o planejamento urbano como solução. Ele só será capaz de reverter essa fórmula da insustentabilidade, aplicada hoje nas cidades, se considerar a questão ambiental no centro da tomada de decisão. Não porque seja mais importante que as outras medidas, como as dos planos social e econômico, mas porque as determina.
Fórmulas insustentáveis
O atual plano diretor de São Paulo, elaborado em 2002 e em vigor até o ano que vem, trata problemas ambientais em itens periféricos e desarticulados de outras propostas. No capítulo sobre resíduos sólidos, por exemplo, não há diretrizes firmes que evitem o colapso dos aterros sanitários. Há apenas o registro da bonita intenção de se promover o “fomento à reciclagem”. Como se ela não alavancasse a economia sem precisar explorar mais matérias-primas e ainda tirasse da miséria milhares de catadores. Nesse ponto entraria em prática outro nome que os planos de governo sempre citam, apenas para posar de socialmente responsável: a inclusão social.
A maior cidade da América Latina ainda não conhece seu plano diretor estratégico (PDE) para os próximos dez anos – a Prefeitura até agora não apresentou nada à Câmara de Vereadores. O que há é um plano para a São Paulo de 2040, aberto à consulta pública, sem força de lei, nem densidade digna de planejamento urbano. Mas que pode servir de inspiração para o PDE.
O SP 2040 avança ao século XXI quando prevê em seu eixo ambiental a integração do tecido urbano com os ecossistemas. Os outros eixos, no entanto, oferecem mais marketing que estratégia.
Experiências inspiram
No lado positivo da balança, não são poucas cidades no mundo que experimentam a sustentabilidade, cuja perspectiva une numa mesma base os os benefícios ambientais, sociais, econômicos e culturais – ligação que fica cada vez mais óbvia apesar de alguns interesses especulativos insistirem no dissenso.
Seja uma ecovila na Escócia, um projeto de traffic calming em Belo Horizonte ou a reinvenção da economia no Bronx, em Nova York. Experiências inspiram. Na semana passada, uma iniciativa de diversas organizações da sociedade civil lançou na capital paulista o programa “São Paulo 2022”. A publicação reúne diretrizes e metas, com base no sucesso de grandes cidades pelo mundo, para que a São Paulo dos próximos dez anos seja mais democrática (com o poder descentralizado) e saudável (com rios despoluídos e descanalizados, 100% dos resíduos sólidos reciclados, expansão das áreas verdes como alívio para o clima, entre outros). A proposta ainda mostra a viabilidade da mobilidade urbana, economia criativa e inclusão digital (íntegra disponível aqui).
Sua maior contribuição, no entanto, é expor a fórmula, que se equaciona quando retornamos para o ambiente os benefícios que retiramos. Desinventar o lixo e fazer com que a vida útil dos produtos também seja circular, como todos os processos naturais, é um dos exemplos de como devem funcionar as políticas para uma cidade sustentável. Para simplificar a fórmula: consumir menos, devolver benefícios ambientais, somar tecnologias limpas e multiplicar a educação para a cidadania é igual a sustentabilidade.
