O projeto não é antiecológico. Os jovens não saem às ruas para protestar. A construção de Belo Monte é antidemocrática e o povo sai às telas do Youtube para finalmente abrir o debate.
Poderia ser só mais uma mega obra, para a Copa ou para o PAC. A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte não está gerando polêmica por si só, mas pelo que significa diante das opções energéticas de que o Brasil pode lançar mão neste início do século XXI. O país é repetidamente lembrado por apresentar grandes áreas potenciais geradoras de energia solar, eólica e até a partir das ondas do mar - limpas, renováveis e livres de impactos sociais tão negativos quanto as hidrelétricas. Reduzimos esse debate à construção ou não de Belo Monte. E, mesmo simplificando, ainda não estamos sendo ouvidos.
Sequestraram a democracia. Os suspeitos são eles: os grandes interesses econômicos. O anúncio é de que os índios foram consultados, mas os relatos de jornalistas e documentaristas que visitaram as tribos levantam a suspeita de que houve pagamentos a líderes indígenas - e quem não aceitou o escambo teria sofrido ameaças. As suspeitas indicam que os índios não foram ouvidos, foram calados.
Os processos de licitação da obra foram dos mais tumultuados dos últimos tempos. Não há transparência em nenhum aspecto do projeto. Quando o Ibama usou sua autoridade ambiental para barrar a licença, barrou-se sim o presidente do órgão. Abelardo Bayma foi pressionado e acabou substituído por outro que emitiria a licença ambiental definitiva para o projeto.
Os aspectos financeiro e energético também são obscuros: a declaração do governo é de que a construção da usina custaria R$19 bilhões, mas o pedido de financiamento é de R$25 bilhões e a mais recente estimativa é de que custe R$30 bilhões. Ou seja, ainda não sabemos quanto subsídio estatal será desembolsado para concluir Belo Monte. O anúncio de que será uma das três maiores usinas do mundo e a maior usina inteiramente brasileira também é falseado, já que essas posições nos pódios se deveriam ao potencial máximo de 11.223 MW. Entre cheias e secas, o potencial médio no ano é de 4.420 MW.
Se mostrasse falhas nos critérios de sustentabilidade, conceito que nossa sociedade começa a aprender, o processo não seria tão assustador. Mas Belo Monte expõe falhas da nossa jovem democracia. A construção marcha a passos pesados e ninguém parece poder interferir, já que as autoridades responsáveis por trazer os planos do governo ao conhecimento público não são eficientes - seja porque lhes falta interesse ou porque não têm alcance.
Os meios tradicionais de se promover a democracia estão emperrados. Mas é justamente nesse ponto, em que o cenário fica crítico, que sociedade emerge com mecanismos inovadores. Mais eficazes que os modos convencionais de “botar a boca no trombone”, eles podem reinventar a organização social.
Fios de esperança, conectados
Duas décadas após o fim do regime militar no Brasil, a Internet e as redes sociais incitam a revolução por uma democracia mais autêntica e participativa, independente do poder financeiro e dos limites territoriais. Há menos de um mês, o vídeo A Gota D’água , produzido por atores globais, ganhou repercussão viral na web, alcançando quase quatro milhões de visualizações e gerando, além de assinaturas contra Belo Monte, dezenas de vídeos-resposta (assista no fim do post).
Uma resposta produzida por estudantes da Universidade de Brasília e outra pela Universidade Estadual de Campinas ganharam, no início deste mês, a capa da revista de maior circulação no Brasil. E três dias depois da reportagem na Veja, surge de Altamira, no Pará, a versão dos moradores que serão diretamente impactados pela construção da usina. Seguindo a mesma linguagem, no título provocativo e no revezamento de personagens para a cena argumentativa, “Pimenta nos olhos dos outros é refresco” completa a diversidade do cenário saudável em que o debate finalmente é democratizado.
Cidadãos internautas estão mostrando que nossas decepções com o fazer político não precisam se refletir em apatia. Eles procuram outras formas de serem ouvidos e encontraram nas redes sociais um meio de confrontar, diretamente e em pé de igualdade, o glamour e o carisma dos artistas da Globo e de outros grandes formadores de opinião.Nunca foi tão possível ter uma ideia na cabeça e uma câmera na mão.
A era digital tinha mesmo de estourar agora, com potencial de mobilizar a opinião pública e unir a sociedade civil. Afinal, não será possível alcançarmos a sustentabilidade sem termos conquistado a democracia.
