Ao parar em frente às prateleiras das lojas, que tal olhar para esta época como uma oportunidade de promover a cidadania?
O Natal virou uma febre de consumo. O espírito natalino está mais simbolizado pela movimentação caótica na rua 25 de março, em São Paulo, do que pelas ações solidárias que, alguns dizem, dita o clima de dezembro. Para horror dos consumidores conscientes, toneladas de papeis de presente, fitas e laços, enfeites, luzinhas e mais tranqueiras para a mesa ou a parede lotam as casas das pessoas e, pouco tempo depois, suas latas de lixo. A boa notícia é que o horror ao consumismo natalino pode ser uma alavanca para a mudança do hábito.
Como o motivo das comemorações não é o consumismo por si só, essas datas são um bom álibi para transformar o consumo em um ato de cidadania. Afinal, consumir não é pecado e pode ser usado para promover o bem, incentivar boas práticas empresariais, recompensar trabalhadores dedicados e presentear uma pessoa querida - com algo que ela necessite, de preferência.
Hoje, as portas estão abertas para um consumo desenfreado, apontado por alguns como herói da crise econômica - gerador de empregos! Grande força que faz rodar a economia! Só um detalhe técnico não deixa a conta fechar: as matérias-primas não são infinitas. Não dá para crescer para sempre. Precisamos superar a lógica atual e, para isso, é imperativo que o ato de consumo seja consciente. O comportamento de consumo tem o poder de determinar como os produtos serão fabricados, utilizados e descartados na sociedade. E daí, o ato da compra vira uma chave da sustentabilidade.
Simplesmente comer menos carnes ou banir as sacolinhas plásticas do seu dia-a-dia não vai bastar (apesar de valer o esforço, gente!), porque do ponto de vista do ambiente todas as nossas ações consomem algum recurso natural, mesmo que não estejamos em frente às prateleiras. Isso é, o consumo consciente, mais que novas ações, requer uma nova lógica de pensamento que guie nossas decisões.
Na hora de pesar “custo x benefício”, é preciso incluir os fatores socioambientais nos dois lados da balança. Uma camiseta, por exemplo, pode carregar o custo social de uma mão-de-obra escrava e o ambiental do uso excessivo de agrotóxicos, não incluídos no preço final e dificilmente rastreados ao longo da cadeia produtiva. Por outro lado, um artigo feito por comunidades ou fruto da economia solidária traz o benefício social de manter a economia a cultura locais, além de dispensar impactos ambientais que seriam maiores se o produto fosse industrializado.
Depois de incorporar em suas compras a lógica do consumidor consciente, alguns truques podem ajudar. Preferir produtos feitos localmente, ou seja, que precisaram de menos transporte para chegar até nós, é uma forma de incentivar a economia local e evitar as emissões de carbono do transporte. Também vale apostarmos em presentes imateriais, seja uma carta ou ingressos para um teatro. Outra opção de muito valor para o presenteado, porque demonstra dedicação a ele, é produzir o presente em vez de simplesmente passar na loja para comprar algo pronto. Pode ser uma poesia, uma fotografia emoldurada, um pequeno artesanato.
Não existe uma lista que esgote todas as ações do consumidor consciente - elas requerem a criatividade de cada consumidor. No entanto, um resumo prático ajuda a guiar esse consumo. São os 5 Rs: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar.
Repensar foi lá o primeiro passo. Recusar é a prova de que o consumo foi repensado: não precisamos de tantas coisas quanto nos oferecem e trocar de computador ou redecorar a casa não é uma necessidade. Quem recusa, Reduz seu consumo e alivia a pressão sobre o planeta. Reutilizar é uma forma de alongar a vida útil dos produtos - geralmente feitos para quebrar logo e provocar uma nova compra, a chamada obsolescência programada. Quando não há mais utilidade, encaminhar os produtos para a Reciclagem é a última responsabilidade do consumidor consciente. Faça aqui o teste.
Usar os bens materiais com racionalidade é diferente de explorá-los com ganância. Quando usamos um recurso para nos sustentar e promover nosso desenvolvimento, nosso consumo tem valor. Já quando jogamos fora algo que ainda podemos usar, como conta o neto de Mahatma Gandhi sobre o que seu avô lhe ensinou, “estamos praticando uma violência contra a natureza, que foi subtraída para nos fornecer esse material. Estamos desrespeitando as pessoas que trabalharam nessa produção. E também estamos tirando a oportunidade das pessoas que ainda não têm esse bem. Assim vamos gerando um ressentimento na sociedade, que pode estar na raiz da sua violência, sem nem saber por onde ela começou.”
Neste Natal, que nosso consumo seja instrumento de cidadania e solidariedade. E que regenere ressentimentos em vez de criá-los. Boas festas a todos!
Presentes imateriais:
Presentes ecológicos:
Joanninha - aluguel de brinquedos
12 presentes sustentáveis para o Natal
Presentes eco e solidários:
