Sustentabilidade
jan
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Por que ainda não vencemos o crack

Publicado às 11:29 2 comentários
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Somos todos vítimas do crack. E os responsáveis, quem são?

A Cracolândia não é apenas resultado do fácil acesso a uma droga barata, mas também da grave omissão dos agentes públicos e das famílias em relação ao que a droga representa. Antes de se iniciar a busca por responsáveis, é preciso uma dura admissão: os viciados em crack perderam a condição de exercer sua cidadania.

Se a dependência química denota a perda gradativa de esperança, o crack é o fim da linha. As consequências da abstinência são tão graves que os viciados não podem mais ser responsabilizados pelos seus atos. Ficam na condição de zumbis. Com a perda de autonomia, precisam ser tratados e tutelados.

Mas quem se arrisca a responder por eles?

As famílias já o tentaram, em vão. A legião de dependentes na Cracolândia em geral já foi expulsa de suas famílias e perdeu os vínculos. Por si só, o dependente não tem amparo para sair da situação em que caiu quando ainda tinha responsabilidade pelas suas decisões. Resta ao Estado, em suas múltiplas esferas administrativas, responder por esses doentes. O que lhe falta é coragem política e moral para assumir a tarefa.

Por parte da polícia, faltam políticas de inteligência, sistemáticas e contínuas. Os pontos de droga estão mapeados e o disque denúncia foi chave nesse mapeamento. Mas a ação continua emperrada. Por quê? Conivência, incompetência e corrupção são os vetores que amortecem a ação policial.

A questão permanece: por que não se combate a maior epidemia social de nosso tempo de forma sistêmica e integrada? A demonstração dada pelas autoridades na última semana mostrou mais uma vez que as injunções políticas foram mais importantes que uma estratégia sistêmica de enfrentamento do caos que se instalou no centro de São Paulo. E o resultado foi uma para a desengonçada ação policial.

O exemplo pode vir de fora

As experiências internacionais mostram que a ousadia em experimentar soluções - que incluem a própria droga como remédio, por exemplo - é mais eficiente do que o conservadorismo das políticas que simplesmente reprimem o uso. Um dos principais pontos defendidos pela Comissão Global de Políticas sobre Drogas (www.globalcommissionondrugs.org) é justamente “garantir que uma variedade de modos de tratamento esteja disponível - incluindo não apenas metadona e buprenorfina, mas também programas de tratamento assistido com heroína.” Por mais doloroso que possa parecer, ainda é um caminho minimamente humanitário comparado ao mundo cão que vimos nas últimas semanas por falta absoluta de políticas coordenadas.

A Suíça é um dos países reconhecidos por seus programas de distribuição controlada de heroína. Lá, os parques públicos foram saneados devido à abertura de centros que ministram a droga nas suas proximidades e à promoção de atividades ao ar livre para os jovens. A política antidrogas dos suíços tem quatro pilares: prevenção, terapia, redução de riscos e repressão. Alemanha, Espanha e Canadá também provaram que a assistência psíquica somada ao fornecimento seguro da droga diminui a criminalidade nas ruas. Só não soluciona a dependência química.

Quebrar paradigmas é um passo imprescindível para o tratamento dos dependentes de crack. Isso já aconteceu no combate à AIDS. O Brasil, católico e conservador, já havia mostrado mais vontade política ao tratar e divulgar essa doença sexualmente transmissível, quebrando o tabu. (Aliás, a liberdade com que hoje debatemos o tema da homofobia e do homossexualismo deriva dessa primeira ousadia.) A rigor, nada impede que as tímidas campanhas de combate ao crack deem lugar à contundência, franqueza e clareza que deram eficiência às mensagens de alerta contra a AIDS.

Por que os governos relutam em reconhecer o combate a essa epidemia como prioridade absoluta nas políticas públicas?

São os caminhos das campanhas ousadas, conscientização em massa, criação de infra estrutura para acolhimento e tratamento, suporte às famílias vitimadas, mobilização de especialistas em dependência química, repressão incansável ao tráfico, e, sobretudo, da assunção corajosa de responsabilidades pelos agentes públicos que viabilizam o combate ao crack.

A recuperação dos espaços públicos para todos será um benefício derivado - porque a maioria desses espaços é tratada como se a ninguém pertencesse. As cracolândias servem de depósitos para tudo que a sociedade rejeita. Mas a questão, de longe mais importante, não é a de sanar as cracolândias de seus zumbis. É libertar desta atroz doença social nossos atuais e futuros cidadãos.


  • Perfil do autor

    Ricardo Young é empresário, graduado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas, pós-graduado em lideranças sistêmicas pelo MIT e em administração geral pelo Programa de Desenvolvimento Gerencial, atual Insper.

    Foi fundador da Associação Brasileira de Franchising (ABF) e promotor do sistema de franquias no Brasil - exerceu a presidência da ABF por três mandatos alternados.

    Há 20 anos atua com os temas de responsabilidade social, meio ambiente e sustentabilidade, tendo sido um dos fundadores, presidente executivo e atualmente conselheiro do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Também faz parte dos conselhos do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e do Instituto Democracia e Sustentabilidade, além de ser conselheiro de sustentabilidade de diversas empresas. Liderança ativa no Movimento pela Nova Política, em 2010 foi candidato a senador em São Paulo pelo Partido Verde. Young também escreve bastante: é autor de um livro, co-autor de outros três, tem vários textos publicados e é produz artigos como colaborador do jornal Folha de S. Paulo e da revista Carta Capital.