O fim do mundo pode ser apenas o fim do modo como o conhecemos hoje.
O ano de 2012 tem
grandes motivos para abrir espaço a um novo mundo e ser decisivo ao futuro da humanidade. Ganham debate mundial os temas centrais às crises econômica, ambiental e social. Projetos essenciais ao desenvolvimento sustentável brasileiro entram na agenda do governo federal. Eventos se distribuem ao longo do ano com o carimbo da palavra mágica “sustentabilidade”. O potencial é de emergir um novo modelo mundial de desenvolvimento. Mas é claro que não só o potencial sopra o rumo dos acontecimentos.
O Código em suspense
Exemplo de grande suspense na agenda da sustentabilidade é a votação do Código Florestal, que está de volta à Câmara dos Deputados e deve chegar às mãos da presidente Dilma até o mês de março. As alterações feitas pelo Senado são interpretadas como uma conciliação entre as bancadas ambientalista e ruralista do Congresso. No entanto, os dois lados continuam descontentes e as condições em que o projeto volta à Câmara é muito mais conveniente às emendas ruralistas do que de à tentativa ambientalista de consertar alguns absurdos - como é o caso dos “4 módulos fiscais”.
Nesses momentos finais da votação do Código Florestal, a pressão da sociedade será mais importante do que nunca. A opinião pública precisa marcar presença na discussão através de consultas, protestos presenciais e cyberativismo. De antemão, o Comitê Brasil em Defesa das Florestas já anuncia a campanha “Veta Dilma”, lembrando que a presidente, durante a campanha eleitoral, assumiu o compromisso de não aceitar nenhuma lei que colabore com o desmatamento. O Brasil precisa deixar claro, logo no início do ano, que o meio ambiente não pode ser relativizado em função das situações econômicas - afinal, ele é insumo da economia!
Anfitrião da Rio+20
Afirmar isso de cara, já no começo de 2012, pode definir a liderança ou o acovardamento brasileiro diante do século XXI. Isso porque, logo mais, entre 20 e 22 de junho, acontece no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. O governo brasileiro já foi duramente cobrado na COP 17 do Clima, em novembro do ano passado, sobre sua conduta em relação ao Código Florestal. Se ele for aprovado como está, sem oferecer soluções para a Economia Verde, a moral do país que poderia protagonizar a Rio+20 será reduzida ao status de recepcionista em mais um evento pomposo da ONU.
Por outro lado, se o governo brasileiro sinalizar com o Código Florestal uma relação simbiótica entre economia e meio ambiente, poderá até atrair olhares perdidos dos países que sofrem com a crise econômica e buscam uma solução de justiça social e de uma economia que se sustente. O interesse dos líderes mundiais em vir à Rio+20 pode ser mais genuíno e mais aproveitável se o Brasil oferecer a Economia Verde sem mais pontos de interrogação.
Continuamos produzindo, comprando e jogando fora
Ora, não é só a Rio+20 que deve sinalizar nossos caminhos para a Economia Verde. O modo e a velocidade com que produzimos, consumimos e descartamos nossos bens estão no coração da crise ambiental e pode passar por uma revolução a partir de políticas que regulem essas atividades, inibindo economicamente o que não é sustentável e incentivando o que pode sê-lo. Nesse sentido, foi lançado no fim de 2011 pelo Ministério do Meio Ambiente, nove anos depois do compromisso assumido no Processo de Marrakesh, o Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS), que vigora até 2013.
Depois de produção e consumo, o descarte. Esse item também está contemplado na agenda de 2012, quando devem se consolidar os acordos setoriais da logística reversa, prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos - aprovada no início de 2011, após mais de vinte anos de tramitação no Congresso. Os acordos setoriais devem garantir o fechamento do ciclo produtivo, de modo que cada setor da indústria seja responsável pelo pós-consumo.
Haja energia
O lixo é oportunidade econômica até mesmo para a geração de energia. Essa possibilidade, entretanto, continua sendo pouco discutida no Brasil. Com medo de emitir carbono ao se livrar de toneladas de lixo, seguimos pujantes com a expansão das termelétricas. Belo Monte, inclusive, ainda não encontrou força democrática que promova alguma parada para repensar o projeto em 2012. As conquistas do etanol deixaram de se consolidar. Foram paralisadas em função do ufanismo em relação ao pré-sal. Concorridíssimos leilões de energia eólica continuarão sendo promovidos, dentro das tímidas porcentagens que o Plano Decenal de Energia promete para as renováveis. As experiências em energia solar seguem tímidas, como se não vivêssemos em um imenso país tropical.
Para Julho, as Olimpíadas de Londres prometem ser as mais sustentáveis da História. Enquanto isso, a promessa de sustentabilidade emperra nos megaeventos esportivos que o Brasil sedia nos anos seguintes. Mobilidade urbana com transporte público de qualidade deve ser uma cobrança frequente neste ano. Não só devido ao precário andamento das obras para os megaeventos, mas também devido às eleições municipais.
Onde as coisas acontecem
No fim de 2012, enquanto a COP-18 do Clima deve seguir o protocolo nada funcional, as eleições do próximo outubro têm enorme potencial e mérito para concentrar as energias e expectativas do brasileiro. Porque são nas cidades que as coisas acontecem. É no nível municipal que o imposto pago vira política pública. É na cidade que desemboca o produto retirado da Amazônia, a água dos mananciais, a energia dos ventos ou de Belo Monte.
Destino dos impactos ambientais e da execução de parte significativa das obras públicas, a cidade também é o local de onde saem a maioria das soluções. Os efeitos das mudanças climáticas do planeta, por exemplo, são sentidos de modo diferente em cada local. E, enquanto o sistema multilateral fracassa na tentativa de governar o mundo, é localmente que as mudanças climáticas podem ser enfrentadas ou dribladas.
Nestas eleições, os candidatos precisam mostrar comprometimento com projetos municipais de saneamento básico, mobilidade urbana, gestão de resíduos, combate às mudanças climáticas e às ilhas de calor, ocupação do solo e prevenção de enchentes. Propostas inteligentes e integradas poderiam facilmente aproveitar melhor as tecnologias e redes sociais para a participação pública e o mapeamento desses problemas socioambientais. Para que não assistamos às mesmas notícias catastróficas nos próximos anos, as eleições municipais são um evento-chave na agenda de 2012. Quando as cidades experimentam soluções, um novo mundo pode se abrir para a sustentabilidade.
